ladainha

mancha ruça num céu quieto
figura escura em janela entreaberta
e uma cortina gorda
gorda e lenta
assopra cansada

luz miúda no fim do bairro
rua úmida desmazelada e morna
nenhuma gente tonta ou orla
nada que ondule que apareça
nada nenhuma coisa de acontecer

vento no encalço
no pescoço feito um laço
uma gravata um abraço
um braço
de uma gente feita a abraçar

a dança das árvores
das árvores e folhas
e folhas com chuva
com chuva de vento
de vento e solidão

as crianças metidas em casa
os velhos nas cobertas
e os mortos nas terras
abaixo do chão
nada se move quando tudo acaba

não nenhum rosto ou falta
não há nada que ver com isso
nenhuma pele enrugada
nenhum frio
nada

os corpos desajudados
estirados à cama em pés descalços
sob a luz pálida ou amarela
ele a pensar sempre nela
ela pretendendo ficar

longes
pessoas opostas
avessas distantes sozinhas
ele a pensar sempre rainha
ela pretendendo um rei