até ao fim

deus quer matar-nos à fome
dizia a mulher ao pequeno
que abraçava as canelas
a esconder a barriga funda muito funda

não devemos nunca falar assim dizia ele
porque se deus se zangar conosco
poderá arrancar-nos tudo o que ainda temos
um ao outro

sabiam ambos que as noites são sempre mais compridas
quando não se tem nada na barriga
sobe ao peito a fome
e quando é grande a fome dói-se o coração

a alma vai-se apertando e perde-se logo a pujança
no corpo que emagrece num espanto
demora nada escapa boca fora
a alma miúda da criança

eu queria que soubessem todas as pessoas
o modo muito maltratado como estamos sobrevivendo
se um milagre é algo escasso ou muito muito caro
já estamos a pagar um preço muito alto para viver

a vida não se compra de nenhum modo ele sabia
e não se desperdiça nas faltas de cada dia
o que temos são as necessidades básicas não atendidas
mas ainda não nos falta a companhia

estarmos metidos nessa juntos é já um milagre
imagina se sofrêssemos sozinhos ou muito separados
nenhuma pessoa merece a fome ou qualquer outra falta eu sei
mas nada pior que a solidão

a mulher percebeu que era mesmo uma dádiva
ter consigo alguém assim já tão sabido
e que a responsabilidade de deus era nenhuma
por tê-la poupado da solidão

dizia ele
doer o coração pela fome e não pela solidão eu prefiro
e estar assim contigo até ao fim
como a vela que estanca a chama
não é algo que deus peça a uma criança
mas posso tudo suportar se comigo puderes estar até ao fim
todo milagre é possível quando afastamo-nos da solidão