menina de vidro

beirava uns sete oito
medindo uns poucos palmos
e já chacoalhava os cabelos
como se vivesse a dizer nãos

andava vagarosa
como a carregar em si um mundo
todo repleto
de coisas de quebrar

era inteira de vidro
dos ossos aos olhos
da pele ao coração
toda por quebrar

sustentara-se tanto
que chegara aos doze intacta
com a maquiagem pouco borrada
só quando escapulia alguma emoção

vagava pelos silêncios
com as mãos enjambradas
nos bolsos das calças
e camisas de algodão

era inteira de vidro
coração blindado não à toa
nem dava pé nas coisas fundas da vida
nem corria depressa aos abraços

lá pelos dezessete
embaçada com calores sutis
se pôs debruçada nas janelas
fez-se uma namoradeira recente

covarde nos sentimentos
nunca tivera as mãos preocupadas
guardava-se por demais
era uma menina-vitrine

e de que adiantou tanto claustro
tantas coisas dadas ao depois das horas
foi dizer sim a um rapaz
quebrou-se pra sempre