mulher de papel

recolhida numa grama
soprando um dente-de-leão
pernas enviesadas
pelo longo do vestido

cabelos cata-vento
concediam ao vento
o direito de levar ao longe
os pensamentos naquele moço

os pés rosados
combinavam bem
com as unhas devoradas
pelas saudades prematuras

as recusas do estar perto
e das esperanças engorduradas
não serviam para nada
pois nada emagrece a falta

ela tonta e neve
deixava a maçã do rosto
elevar-se aguda
ofuscando o mudo da voz

só de olhar dava pra saber
que ficara dias ali
querendo se dobrar inteira
e alçar voo como avião de papel

pensava que os papéis eram mágicos
e que podiam ser qualquer invenção
podiam ser pássaro flor casa
podiam ser carta de alguém por voltar

podiam ser carta de alguém por voltar
com as poucas palavras
há muitas além de você
mas só há você

pelo amassado da cara
pelo amassado do coração
foi feita de papel
que eu sei