ficamos corpos atrasados um ao outro
cada qual para cada canto
disjuntos numa lonjura de dar dó
enfezados e desmazelados com as coisas de sentir
vou te contar da saudade
que se tem e não que se sente
ter de possuir e não de sentir
não de intuir não de suspeitar
os braços que abraçam as barrigas fundas
em sofás de corpos nas salas amarelas
enlaçam corações um tanto magricelas
com o obeso da falta a pesar sobre a carne
vou te contar da saudade
que habita e não que mora
habitar de permanecer e não de passar
não de sair sim de ficar
e os tempos descontinuados dos corpos mal juntos
desmiolados e magoados a sofrerem das cabeças
à cata ou espera que uma gente apareça
e ensine logo de vez como faz um coração ser feliz
vou te contar da saudade
que se vive e não de que se morre
viver de muito sentir e não de existir
não de fazer ir sim de valer ficar
