escrevo por nada

– ao joão cabral de melo neto, pela morte e vida severina (auto de natal pernambucano) –

não é nem pelo cozido da carne que o tempo faz
nem pelo escuro da pele que o sol inventa
nem pelo maduro das almas guardadas nas caixas
e nem pelo escarcéu das famílias vendo a quem a morte da vida isenta

não é nem pela sombra distorcida dos corpos exaustos a trabalhar
nem pelo sujo da camisa que faz do homem algo a honrar
nem pela asneira de suspeitar ser coisa feliz
e nem pela roça que leva aos matos os homens raiz

não é nem pelos inventos que trocaram o amor pelas máquinas
nem pela terra seca e mal lavada
nem pelo grosso do cabelo empastado de suor
e nem pela riqueza que faz dos homens um algo pior

não é nem pela igualdade que disseram-me haver
nem pelo desprezo do bruto sapato num pé de sofrer
nem pela leveza da pena da pá
e nem pela nobreza de ser o que há

não é nem pela floresta ou água ou bicho
nem pelo sagrado que faz do homem um sacrifício
nem pelas ruas das casas das pessoas
e nem pela fome que faz das mulheres vassouras

não é nem pelas crianças roubadas das mães
nem pelas escolas de porcos ou cães
nem pelas paredes de quadros ou nada
e nem pela alteridade caminho e estrada

não é nem pelas nossas ou outras pessoas
nem pelos títulos diplomas papéis
nem pelo apreço das pessoas sozinhas
e nem pela vontade de ser quem tu és

não é nem pelo buraco na cara da alma
nem pela tosca fundura das barrigas
nem pela vida sempre sofrida
e nem pela vontade de nunca morrer

escrevo por nada