a rua espera até ao fim

a mãe da minha mãe ralhou-me
quando uma vez mais
parti a cara e os ossos menores
em mais um acidente gravíssimo
no mesmo lugar da mesma rua

disse-me assim
andas à cata da morte
mas tens por hábito a sorte
por não teres batido as botas
embora insistas demasiado em mutilar-se

o pai da minha mãe acocorou-se
e disse-me que eu não estava assim tão mal
que haveria cura para os dentes fujões
e que as partes que me faltavam muito
seriam coladas ou renasceriam bem depressa

já o dôtô muito branco e muito objetivo
disse-nos que era caso perdido
e que eu estava falido em me recuperar
pois alguém assim tão magro e tão distraído
nem a rua nem a vida seria capaz de atravessar

e eu desastrado e doído muito doído
a ouvir tudo aquilo só fazia pensar
se costuram-me espantados os rasgos sofridos
colam-me os dentes caídos e os ossos ainda vão remontar
valha-me deus quando ao coração chegar