o cão falecido

deveríamos escapar à morte
para que não partíssemos súbitos
feito o cão falecido do meu irmão

vi quando ainda tremia das pernas
inconformado a perguntar à mãe
se havia algum céu ou um deus
que prestassem socorros e cuidados aos cães desligados

partíamos e repartíamos palavras
e a minha mãe já exausta
não mais suportava empregar vocábulos
a dizer com brandura
filho a morte é um modo da vida parar de doer

ficávamos ao lado da terra mexida
a pensar que para logo
estaríamos todos ali também
mas não dizíamos nada ao irmão
já não dizíamos nada

à noite em casa
resolvi desastrado
explicar com palavras
a eternidade ao irmão

a eternidade é um momento que não passa
e se vivêssemos milênios ou séculos
teríamos eternidades e mais eternidades
pois nem tudo o que perdura em vida é coletivo irmão

a morte do cão é uma eternidade
a saudade das pessoas é outra eternidade
o amor encontrado é mais uma eternidade
um amor perdido também

se vivermos tudo isso
por apenas um dia que seja
teremos então vivido para sempre
e saberemos logo
que chegamos longe irmão

e o meu irmão me disse assim
a morte do cão é uma eternidade
a mãe solícita para comigo neste momento é outra eternidade
um amor perdido é mais uma eternidade
o amor de irmão também

chegamos longe irmão