a ver e não haver

já não tínhamos móveis em casa
e os ecos tagarelas
eram como se disséssemos tudo repetidas vezes
mas não dizíamos nada

preferíamos implodir palavras
a dizer asneiras
éramos feito mudos
quando já não tínhamos móveis em casa

e já não tínhamos felicidade em casa
como se a tristeza se instalasse
por lei decreto ou vontade
e sucumbíamos à vista

os lábios desligados
como se só para dentro tudo falássemos
e não cometíamos um só sorriso
quando já não tínhamos felicidade em casa

e já não tínhamos janta em casa
nem pelancas nos corpos
porque secos
sem cuidados ou afetos

as panelas desabitadas
feito barrigas à fome cabeças ao ócio
corações ao amor
quando já não tínhamos janta em casa

e já não tínhamos almas em casa
éramos carnes desalmadas
ossos falidos
pessoas opacas

carregávamos velas magoadas
para cada canto dentro de casa
a buscar fora aquilo que dentro faltava
quando já não tínhamos almas em casa

e já não tínhamos esperança em casa
estávamos quebrados
e a impossibilidade da cura
fazia-nos dormir tardíssimo

por sobre as mãos
sob os nãos
sob teto algum
já não tínhamos nada